Regência verbal e nominal: os verbos que mudam de sentido
Assistir, aspirar, visar, esquecer, custar: a mesma palavra muda de regência quando muda de sentido — e é aí que CESPE, FGV e FCC pegam você. O mapa visual definitivo.
Concordância você até domina. Mas aí cai uma frase com "assistir o jogo" e você trava: está certo ou errado? A regência é a parte da gramática que mais muda conforme o sentido do verbo — e as bancas sabem disso. A mesma palavra pode ser transitiva direta numa frase e exigir preposição na frase seguinte. Quem decora "lista de verbos" se perde. Quem entende o sentido acerta sempre.
Regência é relação: é o vínculo entre um verbo (ou nome) e seus complementos, mediado — ou não — por uma preposição. Vamos enxergar isso com os olhos.
O princípio que resolve 80% das questões
Antes da lista, grave a lógica:
Mudou o sentido → pode mudar a regência.
O verbo assistir não tem "uma" regência. Ele tem uma regência para cada sentido. A banca troca o sentido e observa se você troca (ou mantém) a preposição. É uma armadilha de leitura, não de memória.
Os campeões de pegadinha (regência verbal)
Assistir
| Sentido | Regência | Exemplo |
|---|---|---|
| Ver, presenciar | VTI — exige a | Assisti ao jogo. |
| Ajudar, prestar assistência | VTD — sem preposição | O médico assistiu o paciente. |
| Caber, pertencer (direito) | VTI — exige a | Assiste ao réu o direito de defesa. |
Na acepção de "ver", a norma culta não aceita "assisti o filme". É assisti ao filme. E como o complemento pede a preposição a, o pronome correto é a ele/a ela, nunca lhe: "assisti a ele".
Aspirar
| Sentido | Regência | Exemplo |
|---|---|---|
| Cheirar, sorver | VTD | Aspirou o perfume. |
| Desejar, almejar | VTI — exige a | Aspira ao cargo de auditor. |
No sentido de "almejar", também não se usa lhe: aspira-se a ele, não aspira-lhe.
Visar
| Sentido | Regência | Exemplo |
|---|---|---|
| Mirar, apontar | VTD | O atirador visou o alvo. |
| Dar visto / assinar | VTD | O gerente visou o cheque. |
| Ter em vista, objetivar | VTI — exige a | O curso visa à aprovação. |
Esquecer e lembrar
A regra é o espelho: com pronome, exigem preposição; sem pronome, são diretos.
- Sem pronome (VTD): Esqueci o nome. Lembrei o compromisso.
- Com pronome (VTI + de): Esqueci-me do nome. Lembrei-me do compromisso.
O erro clássico é misturar: "esqueci do nome" (sem pronome, mas com preposição) é considerado errado na norma culta.
Preferir
VTDI que rejeita reforço e a construção "do que":
- Certo: Prefiro cinema a teatro.
- Errado:
Prefiro cinema do que teatro. - Errado:
Prefiro mais cinema...
Nada de "prefiro muito mais do que". É só preferir uma coisa a outra.
Obedecer / desobedecer
VTI — exigem a: Obedeça aos sinais. Desobedeceu à ordem. (Curiosidade útil: por regerem a, admitem voz passiva — "a lei foi obedecida" —, apesar de intransitivos diretos não admitirem.)
Pagar e perdoar
Distinguem coisa de pessoa:
- Coisa → VTD: Paguei a conta. Perdoei a dívida.
- Pessoa → VTI: Paguei ao garçom. Perdoei ao amigo.
Custar
No sentido de "ser difícil", quem custa é a coisa, e a pessoa vem com a:
- Certo: Custou-me acreditar na notícia. / Custou ao aluno entender.
- Evite:
Eu custei a acreditar(uso condenado pela norma culta formal).
Miúdos que a FGV adora
- Namorar — VTD, sem com: Namora o vizinho (não "namora com").
- Simpatizar / antipatizar — VTI com com, e não são pronominais: Simpatizo com ele (nunca "me simpatizo").
- Implicar (= acarretar) — VTD, sem em: O cargo implica responsabilidade.
- Chegar / ir — VI com a: Cheguei ao trabalho (na norma culta, não "cheguei no").
Regência nominal: a irmã esquecida (e cobrada)
Nomes — substantivos, adjetivos e advérbios — também exigem preposição. A boa notícia: muitos herdam a preposição do verbo correspondente. Obedecer a → obediente a. Aspirar a → aspiração a.
O quadro que mais cai:
| Nome | Preposição | Exemplo |
|---|---|---|
| acessível, favorável, contrário, análogo | a | Favorável ao projeto. |
| capaz, ávido, digno, passível | de | Capaz de vencer. |
| apto | a ou para | Apto a/para o cargo. |
| ansioso | por ou de | Ansioso por notícias. |
| compatível, incompatível | com | Compatível com o edital. |
| preferível | a | Preferível a desistir. |
Atenção ao vilão preferível: como preferir, rege a, jamais "do que". E respeito muda o matiz conforme a preposição — respeito a (referente a), por (consideração), com (relação).
Como estudar isso sem enlouquecer
Regência não se decora em lista — se fixa em contraste. O cérebro guarda o par, não o item solto:
- Sempre em dupla de sentidos. Nunca estude "assistir" sozinho; estude "assistir ao jogo × assistir o doente". O contraste é a memória.
- Monte uma frase-âncora sua para cada verbo camaleão. Frase própria gruda; regra abstrata escorre.
- Teste com pronome. Se o verbo rege a coisas, o pronome é lhe; se rege a + pessoa/ideia com preposição obrigatória, é a ele/a ela. Esse teste sozinho elimina metade das alternativas.
- Resolva por sentido, não por "soar bem". "Assisti o filme" soa natural — e é o erro que a banca planta.
Estude com os olhos: uma tabela de dois sentidos lado a lado vale mais que dez páginas de teoria corrida. É exatamente assim que a regência para de ser sorte e vira ponto garantido.
No Português Completo, regência verbal e nominal vêm em tabelas de contraste — cada verbo camaleão com seus sentidos lado a lado, pegadinha marcada e macete — mais questões CESPE/FGV/FCC comentadas para você fixar por contraste, não por decoreba. Pare de perder ponto fácil na regência.
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